quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

CRÍTICA: Quanto vale o show de Tiago Santiago?



Uma coisa é sempre certa: quando um artista está em vias de renovação de contrato com o SBT sempre surgem inúmeras especulações sobre o futuro. Vai renovar, não vai renovar, o que tá pegando, quais as vantagens ou desvantagens de se tentar a permanência e tantos outros fatores. Com o autor Tiago Santiago não é diferente. Ele sai ou fica no SBT a partir de agosto?

São muitos fatos a se analisar. Tiago Santiago chegou ao SBT em 2009, no meio do tiroteio de Silvio Santos contra a Record, que levou Gugu Liberato pra lá. Junto com ele, trouxe Renata Dias Gomes, que havia sido colaboradora em Chamas da Vida, também na Record e chegou com o status que poderia resolver ou pelo menos tentar alavancar os índices do SBT no setor. Inclusive, falou-se nessa época, que ele teria um “plus salarial” se conseguisse bater acima dos 15 pontos. Isso era totalmente irreal pro SBT naqueles tempos, mas não irreal para a carreira de Tiago Santiago que vinha de sucessos, sempre acima dos dois dígitos na Record.

A primeira novela foi Uma Rosa com Amor, adaptação do original de Vicente Sesso e com direção de Del Rangel. A novela reuniu um elenco de peso como há muito tempo não se via no SBT. Betty Faria, Carla Marins, Jussara Freire, Edney Giovenazzi, Luciana Vendramini, Clarisse Abujamra, Lúcia Alves, Cláudio Lins, Carlo Briani, Mônica Carvalho, Isadora Ribeiro e muito mais. A audiência foi discreta, porém, ascendente. A trama, adulta mas bastante popular, foi conquistando espaço aos poucos e não raramente levou a vice-liderança em tempos que isso era bem mais difícil de conseguir. Terminou com 10 pontos de média, o que já era um baita avanço pro setor.

O SBT, infelizmente, não deu continuidade ao horário de Uma Rosa com Amor (20h30) e resolveu colocar uma reprise de Canavial de Paixões, ao invés de promover o lançamento da inédita Corações Feridos, novela que seria a substituta à época. Com isso, perdeu-se o horário de novelas inéditas, que seria retomado em 2011, também com Tiago Santiago, com a densa “Amor e Revolução”. A trama, agora sob direção de Reynaldo Boury, tinha planos ousados. Tanto que se investiu muito na sua produção. Até mesmo a contratação do tarimbado produtor da Globo, Sérgio Madureira (que iria falecer dias antes da estreia) foi realizada. Da mesma forma que “URCA”, Amor e Revolução também teve um ótimo elenco, de atores jovens e adultos de primeira linha. As semelhanças, porém, pararam por aí: ao contrário da sua primeira novela, Amor e Revolução era uma novela com vocabulário elitizado e de firulas históricas, com temática forte, em um horário em que o SBT nunca se deu bem com tramas próprias. Tiago Santiago bem que tentou salvar, ao recorrer a cenas de ação e de sexo e a toques de cenas de humor, mas a novela não reagiu. Até mesmo os depoimentos que eram exibidos ao término de cada capítulo, foram cortados no meio do caminho. O senador por São Paulo, Aloysio Nunes, por exemplo, sequer apareceu na trama.

Portanto, chegamos ao fim do histórico de Tiago Santiago no SBT até o presente momento. Duas novelas. A primeira foi um remake e teve uma avaliação positiva no tocante ao IBOPE (vários momentos na vice-liderança). A segunda foi uma novela própria, ousada, que não combinou com a tradição da teledramaturgia da emissora e não trouxe resultados positivos.

Desde o início de 2012, Tiago Santiago prepara projetos para o SBT. Dois já são publicamente conhecidos. Um deles, a minissérie “Ela tem um Gênio”, que se falou muito que a emissora poderia recorrer a uma produtora independente para sua realização. O outro, a novela “Superpoder do Amor”. Ambos os projetos, vale frisar, tem apelo infanto-juvenil e isso, claro, foi feito justamente já prevendo o sucesso de Carrossel e o futuro da dramaturgia do SBT.

Contudo, optou-se pela realização de Chiquititas a partir de junho/julho de 2013 e não existe uma perspectiva no momento para se aproveitar Tiago Santiago. Isso, em muito se deve ao fato do SBT não ter um segundo horário de novelas, assunto que já foi por diversas vezes debatido aqui. Hoje, facilmente, na grade do SBT se encontraria um horário para uma novela, antes do SBT Brasil. Sendo algo popular, dificilmente marcaria menos que os atuais 5 pontos que Chaves ou outros seriados americanos costumam registrar. E faturaria bem mais.

Tendo em vista tudo isso, fica tudo mais complicado para a permanência de Tiago Santiago. Não gosto de dizer que é carta fora do baralho. O SBT não pode dar ao luxo de sair perdendo seu único autor de carreira, de fato, por simples falta de espaço. O mesmo já se foi feito com Del Rangel, em meio aos preparativos de Carrossel e achei um erro absurdo. Tiago Santiago sempre foi um entusiasta da dramaturgia na Record e lá conseguiu apoio para desenvolver bastante o setor. O mesmo ele poderia conseguir no SBT, com a dramaturgia sendo vista como um projeto de longo prazo e não apenas emendando remakes de novelas infantis umas às outras, como corre o risco de acontecer com o fim de Carrossel, depois Chiquititas...

E ser um autor com capacidade de dar IBOPE não é uma coisa que se desaprende. Tiago Santiago sempre teve muita facilidade de atrair público. Mas resta entender que SBT é SBT e Record é Record. Público do SBT quer ver Uma Rosa com Amor, Carrossel ou um dramalhão bem típico de uma mocinha sofrida e um galã em vias de ser roubado pela vilã manipuladora. Já a Record, o público já se acostumou a ver cenas violentas. Também é preciso conscientizar que não adianta brigar para uma novela emplacar. Reynaldo Boury, pelo que se falou na imprensa, quase abandonou Amor e Revolução, depois de um suposto desentendimento com Tiago Santiago. Poderíamos ter perdido um diretor de alto padrão e as coisas poderiam ser diferentes hoje.

A tentação da Record é grande. Voltar a trabalhar com Alexandre Avancini e ter de volta contato com Carlos Lombardi, com quem dividiu histórias na época de Rede Globo, são alguns dos argumentos a serem levados em consideração. Ainda, a Record deve enxergar em Santiago a chance de voltar a crescer a audiência da dramaturgia, que ainda não se recuperou do baque de “Rebelde” e “Máscaras”.

Não resta dúvida, que o momento na carreira de Tiago Santiago é completamente outro daquele que um dia o fez sair da Globo para ir para a Record. Naquele tempo, a Record ressurgia na dramaturgia e Tiago Santiago ainda era um colaborador tentando a sorte fora da emissora líder. Após ser contratado, foi um dos principais responsáveis por fazer o setor engrenar, com o sucesso de seu remake de Escrava Isaura e, principalmente, o boom de “Prova de Amor” (terror de Bang Bang na Globo) e “Caminhos do Coração”, que não raramente liderava acima dos 20 pontos de pico, a ponto de um dia, na estreia de “Os Mutantes” (continuação da novela) tentar bater de frente com “A Favorita”, da Globo.

Não sabemos, ao certo, a que ponto está o interesse do SBT em renovar. O salário é bastante alto e pagar um salário para alguém não produzir é realmente complicado. Caso opte pela renovação, o SBT estará dando um sinal que pretende dar um salto no setor e produzir mais novelas. Ao não renovar, o medo da dramaturgia do SBT parar nos próximos anos é grande. Afinal, até quando novelas infantis terão fôlego? Até quando a Íris, no peito e na raça, vai conseguir animar o setor, escrever novelas e interceder junto ao Silvio Santos? Ou o SBT vai aproveitar o alto salário de Tiago Santiago e optar por buscar autores bons e por valores mais baixos? É possível encontar autores com tamanha experiência na TV e que sejam tão jovens como Tiago Santiago? Qual a real chance do SBT criar um segundo horário de novelas em um espaço razoável de tempo? Vale o simples fato de segurar por segurar Tiago Santiago para simplesmente impedir ele de turbinar de novo as novelas da Record?

Diante de tantos questionamentos e situações, a pergunta que não quer calar é digna dos melhores shows de calouros dos anos 80: quanto vale o show de Tiago Santiago?

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